Alerta Vermelho

 Alerta Vermelho

Não é por acaso que os estúdios de Hollywood investem milhões em nomes populares para estrelarem suas produções. Basta reunir o elenco certo, afinal, para atrair as atenções dos espectadores e criar, entre eles, altas expectativas. Entretanto, se separadamente Ryan Reynolds, Gal Gadot e The Rock já não costumam fugir muito de certos arquétipos e clichês, chega a incomodar — bastante — que a união da trinca só funcione de fato para que Alerta Vermelho (Red Notice) funcione como um tipo de eco no vazio, já que a obra de Rawson Marshall Thurber limita-se a ser um conjunto de repetições de situações, personagens e piadas que, algum dia, já foram autênticas. Ou, pelo menos, divertidas.

Com exceção de Gadot — que consagrou-se mais recentemente como a Mulher-Maravilha nos filmes da DC —, o restante da trinca é conhecido não apenas por seus personagens-padrão como por se tornarem praticamente gêneros cinematográficos. Com anos em que protagoniza três ou quatro filmes, The Rock mal muda o próprio visual para interpretá-los, de modo que é possível maratonar sua filmografia recente quase como se estes formassem uma franquia única com uma cronologia esquisita. Já Reynolds encontrou o tom do humor em Deadpool em 2016, repetindo o personagem com sucesso até hoje. Afinal, de alguma forma, o ator ainda nos faz rir com suas gags, sendo o único da trinca a não soar devidamente “cansado” em Alerta Vermelho.

Alerta Vermelho

Já Thurber, responsável por comédias como o ótimo Família do Bagulho, divide aqui as funções de diretor e roteirista. E sua premissa, ainda que também cause uma sensação de “eu já não vi isso antes?”, é até interessante: acusado de ser cúmplice em um roubo bilionário, o agente John Hartley (The Rock) precisa se aliar ao ladrão Nolan Booth (Reynolds) — cujo até o nome parece ser derivativo — para poder limpar o seu nome. Entretanto, a dupla precisa lidar com Sarah Black (Gadot), a maior ladra do mundo, que está decidida a reunir três artefatos pertencentes à rainha Cleópatra — semelhantes aos caríssimos e quase míticos ovos Fabergé — e cujo caminho vai de encontro, é claro, com o da dupla.

Se o elenco já deve ter sido responsável por metade do valor da produção — orçada em 200 milhões de dólares —, a outra metade deve ter sido apenas para cobrir os direitos autorais, já que a obra possui tantas referências quanto possível, geralmente colocadas nos diálogos da metralhadora de piadas que é Reynolds. Some isso a uma viagem ao redor do mundo — devidamente destacada por letreiros gigantes com nomes dos lugares — e temos, assim, Alerta Vermelho. E é isso, já que para uma obra que tenta alçar vôos mais altos — e nem tão altos assim, para falar a verdade —, falta algo que torne a produção verdadeiramente marcante, pois nem mesmo a reunião de tal elenco funciona como esperado. O humor é reciclado, as cenas de ação são esquecíveis e as reviravoltas não pegam ninguém de surpresa — o que é, literalmente, a única função de uma reviravolta.

Possivelmente por não ter pretensões de inovar dentro das ideias abordadas, Thurber decida apoiar seu trabalho em cima da trinca protagonista, deixando que o carisma do elenco se sobreponha ao roteiro. O diretor não contava, entretanto, que a não basta charme ou humor para fazer com que a obra funcione, já que os três protagonistas atuam em diferentes níveis de humor, que não se conversam entre si e nem com o tom do filme. Logo, enquanto Alerta Vermelho surpreende por levar-se a sério demais, descartando logo de cara certo senso de ridículo que poderia jogar a seu favor — como 11 Homens e um Segredo, um filme de roubo que respeita suas limitações, ou mesmo o recente Free Guy, que usa da metalinguagem para tecer um comentário contra si mesmo —, Gadot, Reynolds e The Rock entregam tons destoantes, soando como se seus personagens não pertencessem à mesma obra.

Alerta Vermelho

É justamente por esse senso de desencaixe entre o elenco que momentos com potencial — como o confronto físico que ocorre dentro de um cofre de uma mansão — soam demasiadamente artificiais, como um show de luzes que tenta emular uma queima de fogos enquanto todo o público enxerga os artifícios por trás do show. Esta artificialidade prejudica até mesmo que momentos entre-diálogos desapareçam da mente, o que desfaz toda a ideia de uma obra que viaja mundo afora. Afinal, não fossem momentos tão gritantemente destoantes — como a cena da tourada —, mal nos lembraríamos que o filme não se passa em uma única locação. Quiçá, talvez parecesse encapsular toda a trama em um único local, como o já citado cofre, já que nem mesmo a direção de arte é utilizada a favor disso.

Pouco inventivo, mas ansioso pela grandiosidade — não de um bom filme, mas sim de uma lucrativa franquia —, Alerta Vermelho consegue decepcionar mesmo quem não espera muito do filme. Até mesmo o senso escapista se perde em uma narrativa que não chega a lugar algum e cujo jogo de gato-e-rato nunca é explorado suficientemente para criar algum senso de relevância para aqueles personagens. Ainda por cima, fica difícil engolir um filme que não consegue esbanjar o carisma de The Rock e nem fazer uso do charme de Gal Gadot, dupla que não precisa ter o melhor roteiro do mundo para entregar produções que ao menos divertem. E se as já citadas tiradas da versão arqueóloga de Deadpool vivida por Reynolds funcionam, isso diz muito mais sobre o ator do que sobre o texto, cuja conclusão torna tudo mais esquecível ao optar por um desfecho que parece tentar iludir o espectador, como se o filme de verdade ainda está para começar. Resta aguardar para saber se será uma obra à altura do elenco ou apenas mais situações requentadas e costuradas umas nas outras sem o menor senso de diversão ou autenticidade. 

Avaliação: 1.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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