44ª Mostra de SP | Al-Shafaq: Quando o Céu se Divide

 44ª Mostra de SP | Al-Shafaq: Quando o Céu se Divide

Em Incêndios, o diretor Denis Villeneuve realiza uma obra não-linear que costura o drama dos protagonistas ao passado de sua mãe, criando duas linhas narrativas paralelas que, ao se encontrarem em dado momento da obra, fazem sentido e criam um clímax inteligente. Em paralelo a isso, uma das histórias basicamente apresenta ao espectador a dura realidade do Líbano, com suas guerras de cunho religioso. Não, a obra de Villeneuve não tem nada a ver com Al-Shafaq: Quando o Céu se Divide (Al-Shafaq: Wenn der Himmel Sich Spaltet), mas foi quase impossível não lembrar dele enquanto o filme da diretora Esen Işık se desenrolava, graças à sua trama também não-linear e que também trata de temas dolorosos envolvendo conflitos religiosos, as chamadas “guerras santas”.

Em Al-Shafaq, Işık — que também roteiriza o longa — desenha uma trama que acompanha dois núcleos: o da família Kara e o do jovem Malik (Ahmed Kour Abdo). Começando com uma cena no presente — que já capta a atenção e dá o tom da obra —, a diretora volta no tempo para explicar o que levou os protagonistas até aquele momento, ao mesmo tempo em que parte da cena inicial em diante. Sim, é confuso. São três linhas narrativas, uma no presente e duas no passado — sendo uma protagonizada por Burak (Ismail Can Metin) e outra acompanhando o já citado Malik —, mas conforme a trama avança e o espectador se acostuma com o jogo de cenas, fica mais simples de acompanhar.

Al-Shafaq: Quando o Céu se Divide

Burak é um adolescente típico. Embora religioso, o rapaz também tem interesses comuns da idade, tem seus interesses amorosos e quer sair com os amigos. Sua família é turca, mas vive na Suíça, o que cria uma ambiguidade em Burak, que fica entre os costumes da família e a cultura a que está inserido e que, por consequência, ele se identifica mais. Isso o coloca em conflito direto com seu pai Abdullah (Kida Khodr Ramadan), que não abre muito espaço para o diálogo. Do outro lado, Malik é uma criança que convive com as dores da guerra desde cedo, fugindo dos horrores do conflito ao lado de seu irmão. O destino dos três personagens acabam se interligando devido consequências da Guerra Santa que se desenrola no Oriente Médio.

Apesar da boa montagem, que dá conta das três linhas narrativas, esse aspecto da não-linearidade é uma característica vazia, que não traz algum valor verdadeiro para Al-Shafaq, principalmente dada que a trama já seria interessante por si só. Pior ainda, ao optar por começar seu filme com uma cena específica, Işık abre mão de uma virada interessante de roteiro, transformando em causa um momento que deveria ser uma consequência. Com isso, parte da carga dramática se perde e automaticamente o espectador sabe onde uma das linhas narrativas irá chegar. Essa perda se torna ainda mais grave ao final totalmente abrupto da obra, pois enquanto uma das histórias o espectador já sabe aonde irá chegar, a outra trama não chega a nada.

A sensação de pertencimento, tema que permeia a obra, é pouco trabalhado diretamente no roteiro. Algumas cenas tocam no assunto — Burak claramente não se sente bem dentro de casa e com seus costumes —, mas no geral é algo trabalhado apenas de forma subjetiva, justificando as escolhas do personagem sem que o roteiro deixe claro seus motivos. Enquanto as sequências focadas em Malik trazem o olhar ingênuo do garoto como aspecto importante: seu mundo, ainda que tenha todas as dificuldades, traz cores muito mais quentes, em contraste com as cores frias dos dias tristes de Burak. 

Al-Shafaq: Quando o Céu se Divide

Os diálogos são bem intensos e a atuação de Ismail Can Metin, embora sempre com a mesma expressão de raiva guardada, segura bem tanto os momentos que seu personagem permanece contido, quanto aqueles em que põe pra fora seus pensamentos de forma violenta — como quando briga com a irmã na mesa de jantar —, mas Kida Khodr Ramadan, no papel do pai Abdullah, se destaca com sua performance carregada de emoção, em seus gestos e olhares. A relação da dupla é bastante crível, o que valoriza as sequências mais emocionais da obra.

No terceiro ato, alguns diálogos e cenas surgem para responder algumas perguntas, enquanto as intenções dos personagens tornam-se mais claras. Cria-se até mesmo uma nova expectativa que sugere uma reviravolta na trama — envolvendo Burak e a família de Malik —, mas a cena final surge para cortar a obra de forma inconclusiva. A sensação é de que a montagem pecou justamente no final, como se faltassem alguns 10 ou 20 minutos para dar maior sentido à toda a trama que se desenrola no presente. Dessa forma, Al-Shafaq: Quando o Céu se Divide ainda que bastante interessante, perde-se em sua própria história, deixando a sensação de que a não-linearidade desnecessária serviu apenas para enfeitar uma obra que, desde o começo, não sabia aonde quer chegar.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 2.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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