A Taça Partida

 A Taça Partida

À certa altura de A Taça Partida (La Taza Rota), o protagonista vivido por Juan Pablo Miranda surge com uma xícara nas mãos, dessas de café, com a alça quebrada. Me atentei para o fato de, talvez, esta ser a tal taça partida do título — ainda que não literalmente — que de alguma forma daria um pontapé inicial para a narrativa. Este questionamento sobre o significado do nome da obra permaneceu comigo até que, eventualmente, entendi sua temática. Enquanto observava procurando por algo literal, não havia notado o que estava verdadeiramente quebrado em cena o tempo inteiro: o ego.

A Taça Partida é, em resumo, uma obra sobre o ego ferido. E não qualquer ego, mas o masculino. Um orgulho másculo que é exibido nas mesmas proporções em que mostra-se frágil. A trama acompanha uma tarde na vida de Rodrigo (Pablo Miranda), pai divorciado que faz um acordo para pegar o filho após a escola, levá-lo em um passeio e depois trazê-lo de volta à casa de sua ex, mãe do garoto. Entretanto, sem que ela saiba, Rodrigo decide passar a tarde naquela casa — que clama ser sua — e usar o espaço como bem entender. Não há muita maquiagem sobre suas intenções: o que se vê durante os 80 minutos de filme é um homem adulto agindo de forma imatura enquanto deixa claro sua irresponsabilidade e incapacidade de tomar conta de si próprio ou de qualquer outra pessoa.

É incomum em narrativas centradas no protagonista que o sentimento buscado seja justamente o de repulsa por ele. E é exatamente o que ocorre na obra, já que não há nenhum aspecto para que se crie uma identificação com Rodrigo. Pelo contrário, há inclusive uma sequência com diálogos em que este expõe seus sentimentos a um colega que funciona justamente para que nem não seja possível nutrir nem mesmo empatia por ele, já que fica claro que suas intenções são puramente egoístas e simplesmente birrentas, algo complementado em um diálogo na virada para o ato final em que conhecemos um pouco mais a fundo como foi sua relação passada com sua ex e com seu filho. São momentos que contrastam diretamente com sequencias que poderiam funcionar para diluir um pouco a antipatia de Rodrigo, como aquela em que ele sai com o filho a caminho de um açougue.

Esteban Cabezas demonstra um bom jogo de câmera nesta que é sua estreia como diretor. Sua obra possui um estilo suficientemente minimalista, nunca expondo mais do que o necessário para que o espectador possa acompanhar a narrativa, relativamente simples. Além disso, há uma brincadeira que ocorre pontualmente no filme, referente ao quadro que “diminui” em cenas específicas, quase como que sufocando o personagem enquadrado em tela. Um recurso simples usado com elegância para que o próprio espectador sinta-se preso em cena em momentos que potencializam o desconforto e, por vezes, o constrangimento — como na cena da masturbação — de ver um homem emasculado agindo em prol de consertar seu próprio ego ferido, em vão. Tão em vão quanto tentar consertar uma taça partida.

Apesar da curta duração, o filme torna-se um tanto cansativo pela repetição, ainda que o desenvolvimento cíclico tenha seu propósito dentro da obra — afinal de contas, não há porque Rodrigo ser desenvolvido a fundo, já que não existe nenhum crescimento pessoal por parte dele —, o que leva há alguns momentos que soam gratuitos, embora não sejam de fato. Falta, entretanto, algo que faça com que A Taça Partida não seja tão brando, já que não há coadjuvantes marcantes e nem mesmo uma curva dramática tão evidente, que ganha alguns contornos somente na virada do segundo para o terceiro ato em uma discussão mais acalorada que serve apenas para reforçar todo o sentimento negativo já criado para com o protagonista. Dessa forma, mesmo as duas sequências finais que ganham um pouco mais de força, ainda soam demasiadamente soltas, com pouco significado diante do não-desenvolvimento de Rodrigo.

Com bons diálogos — todo discurso sobre querer ser como um super-herói é bastante revelador —, um jogo de câmera interessante e um protagonista propositalmente repulsivo compõem uma obra de propósitos claros e suficiente empenhada para entregá-los ao espectador, ainda que a falta de personagens ou momentos mais marcantes prejudiquem seu andamento. Um bom filme de estreia para Cabezas, mas que falha em olhar para além da metáfora da taça quebrada e o ego ridiculamente frágil do homem, não havendo consequências, aprendizagens ou recomeços. Apenas o puro “garotos serão garotos” que traduz, tão objetivamente, o estado de não-amadurecimento que perpetua a figura masculina, seja ela em qual sociedade for.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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