A Nuvem Rosa

 A Nuvem Rosa

Logo antes da primeira cena de A Nuvem Rosa surgir em cena, uma mensagem surge em tela afirmando que a obra foi escrita e produzida antes da pandemia. É de fato uma informação impressionante, até assustadora, já que a diretora brasileira Iuli Gerbase não apenas aborda temas que ganharam muita importância no último ano, como encapsula nos 105 minutos da obra a exata sensação — e medos, e anseios, etc — que estamos vivendo. O que, a princípio, é um estudo sobre a degradação do psicológico feminino de uma mulher que vive um relacionamento abusivo, acaba sendo potencializado pelo momento atual e torna-se, portanto, um estudo sobre o isolamento e a depressão.

Essa leitura acaba se tornando necessária para que possamos entender os sentimentos causados por A Nuvem Rosa. O início da obra, focado no surgimento da tal nuvem rosa do título, trata de apresentar a dupla protagonista, Giovanna (Renata de Lélis) e Yago (Eduardo Mendonça), uma designer e um quiropraxista que acabam isolados quando surge a ameaça que mata as pessoas em segundos e sobre a qual ninguém parece ter nenhuma informação além desta. De onde a nuvem surgiu e o que causou seu aparecimento? Não importa, pois Gerbase não está interessada em estabelecer esta ameaça, mas sim o impacto que o isolamento forçado — dentre outras coisas — exerce no psicológico dos protagonistas.

Sem muita escolha, a dupla vai aos poucos aceitando a situação atual — o “novo normal” — enquanto, junto do espectador, avançam no tempo através de uma fluída montagem, que através de cenas-chave, explicitam a passagem do tempo sem a necessidade de diálogos expositivos ou letreiros. Aos poucos, Gerbase vai montando um mosaico para o público, que rapidamente entende os perfis dele e dela, entendem um pouco de seus medos e também do contexto da vida de cada um por meio de chamadas de vídeo que revelam familiares e amigos. Diretora e escritora do projeto, Gerbase tem os méritos de conseguir inserir neste início pequenos elementos que, mesmo não aprofundados, preparam terreno para conflitos que cedo ou tarde virão à tona. É como se ela plantasse pequenas bombas em um campo minado pelo qual a narrativa precisará percorrer.

A Nuvem Rosa

Nesse mesmo primeiro ato, já é possível observar o cuidado que Gerbase toma, enquanto roteirista, para inserir diálogos que dizem muito com pouco, como por exemplo na forma que cada um se refere ao outro no começo da obra — Yago está com uma “amiga”, enquanto Giovanna está “só com um cara” —, além da virada para o segundo ato quando a dupla conversa sobre maternidade. São apenas fragmentos que, pouco a pouco, justificarão o desgaste psicológico de ambos durante o decorrer do segundo e terceiro atos. E isso diz respeito, principalmente, à leitura da obra enquanto uma narrativa sobre o relacionamento abusivo.

É engraçado notar como o tempo afeta a interpretação de A Nuvem Rosa, que ao chegar ao público em 2021, ainda vivendo em meio à pandemia, o faz em um momento que é fácil para qualquer pessoa identificar-se com a narrativa. Novos ares, metáforas e elementos são notados na trama, o que pode sugerir temáticas distintas que sequer haviam sido pensadas à princípio. Temas como alienação, fake news, e até mesmo a positividade tóxica que está a um clique de distância — a influenciadora na televisão explicando como a o rosa da nuvem favorece selfies no fim da tarde é cirúrgico — entram na narrativa, enquanto permanece a reflexão sobre isolamento, depressão e a necessidade de socializar que o ser humano possui. Quer queira, quer não.

E neste aspecto, embora possamos apontar facilmente quais temas não são devidamente aprofundados pela diretora — já que provavelmente só seriam relevantes em uma metáfora sobre a pandemia, o que A Nuvem Rosa faz questão de deixar claro que pretende ser —, o que se sobressai é a abordagem do estudo sobre a protagonista feminina e como aquele microcosmos a pressiona até não sobrar nada da personagem que encontramos no começo. Giovanna é isolada no quadro em diversos momentos — como nos jantares em que busca certa fuga da rotina e do relacionamento —, assim como acaba sufocada por um elemento inserido no segundo ato. Não cabe aqui entrar em detalhes, embora o trailer da obra já entregue ao que me refiro.

A Nuvem Rosa

O que assistimos, portanto, é a destruição de uma mulher claramente feliz com sua própria vida e independência no decorrer dos 105 minutos, tudo sob a belíssima fotografia de Bruno Polidoro que, com seu filtro de tons de rosa, cria a metáfora perfeita para a obra. Um mundo cor-de-rosa, supostamente perfeito, instagramável, mas que tem por trás duas pessoas com suas mentes deterioradas. Ela mais do que ele, claro. A alienação, tema que também tem sua dose de importância, acaba ficando em segundo plano, mas exerce função importante para o final do segundo ato, já que tanto Yago quanto Giovanna vão aos poucos alienando-se, cada qual à sua maneira.

A Nuvem Rosa é uma obra incrivelmente surpreendente por trabalhar tantos aspectos de forma tão acertada. Com certeza irá receber uma merecida visibilidade pelo momento pandêmico que estamos vivendo, mas revela-se muito mais que isso, mostrando-se um terror psicológico que não precisa assumir-se como um exemplar do gênero para representar uma situação totalmente assustadora que é mais normal do que se imagina. E tudo isso escondido sob um belíssimo mundinho cor-de-rosa.

A Nuvem Rosa está disponível no streaming do Telecine.

Avaliação: 4.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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