Crítica | A Maldição da Mansão Bly

 Crítica | A Maldição da Mansão Bly

Sempre aponto o terror como meu gênero favorito — seja ele no cinema, na literatura, ou em outras mídias —, em parte pela dificuldade que existe em realizar um bom terror — não existe fórmula certa, pois medo é algo muito pessoal —, mas em parte também por sua versatilidade. Portanto, foi uma experiência bastante interessante me deparar com A Maldição da Mansão Bly (The Haunting of Bly Manor), série antológica de terror criada por Mike Flanagan e que não tem medo de fugir das estruturas fáceis do gênero para criar algo verdadeiramente interessante.

Esta segunda temporada — a primeira foi A Maldição da Residência Hill, mas não há relação entre as duas histórias — utiliza dos clichês do gênero para pontuar uma trama de drama, algo que pode desagradar o espectador que busca algo mais “tradicional”, mas cujo resultado é elegante, melancólico e, sim, assustador. Afinal de contas, o medo não reside apenas no sobrenatural, mas também em situações cotidianas como a doença, a perda de um ente querido ou mesmo na depressão — um mal cada dia mais comum.

Logo no começo da temporada, Flanagan introduz uma série de personagens, à primeira vista de forma rasa. Entretanto, com episódios que dividem-se entre contar a trama de Dani Clayton (Victoria Pedretti) e revelar os pormenores que compõem as diversas histórias de Bly — sejam elas no presente ou no passado —, Flanagan aos poucos constrói um enredo intrincado, cujo maior ganho é a atmosfera incrivelmente assustadora, mesmo sem nada “explícito” mostrado em tela — os famosos jumpscares existem, mas passam longe de ser o grande artifício de terror da obra. Pelo contrário, se a técnica funciona é justamente pela forma angustiante com a qual o roteiro de Bly Manor pega o espectador pelo pescoço.

Como costumeiro em obras com muitos personagens, há um alto número de subtramas, responsáveis pelo ritmo mais lento dos primeiros episódios. Porém, conforme algumas respostas começam a surgir — em um dos episódios mais complexos da temporada —, o ritmo ganha vida nova, mudando drasticamente — para melhor —, além de agregar bastante emoção à trama, de modo a criar um vínculo cada vez mais forte entre o espectador e os personagens que acompanhamos, com destaque para uma cena específica de Hannah Grove (T’Nia Miller) no episódio 5 que é uma aula de direção. É um momento genuinamente emocionante e que deve afetar boa parte dos espectadores.

É impossível falar do aspecto emocional de Bly Manor sem mencionar o incrível elenco da obra. E apesar de diversas atuações brilhantes, o destaque certamente é a performance da dupla mirim Amelie Bea Smith e Benjamin Evan Ainsworth, que interpretam respectivamente, os irmãos Flora e Miles Wingrave. Em obras do gênero, as crianças são quase sempre um trunfo para incitar medo, por vezes sendo os alvos-fáceis do sobrenatural — e é relativamente fácil que o espectador se importe com elas —, seja como figuras malignas — de A Profecia a O Exorcista, não faltam exemplos de “crianças malditas”. 

E em Bly Manor, a dupla consegue entregar este misto de sentimentos: é claro que ambos sabem de algo que está se passando na mansão, mas ao mesmo tempo, tememos pela segurança dos dois a todo momento. E se Bea Smith ganha pelo carisma — é simplesmente impossível não se cativar pela atriz —, Ainsworth entrega uma atuação muito intensa, principalmente com sua voz e linguagem corporal, que inclusive torna possível que o espectador atento perceba exatamente o que está acontecendo antes da série entregar a solução do mistério.

A já citada Victoria Pedretti encabeça o elenco adulto e não faz feio como a protagonista da temporada, entregando uma atuação que se encaixa perfeitamente com a sutileza de Mike Flanagan. A composição de sua personagem, que traz para Bly seus próprios fantasmas do passado, é cativante e não tarda para que o espectador esteja curioso e apegado por sua Dani Clayton. Outro que surge de forma magnética em tela é Oliver Jackson-Cohen, que interpreta o misterioso Peter Quint. Seu personagem é envolto de mistérios e é ótima a forma como o ator transmite certa ameaça sem nunca deixar explícito suas intenções. Já outros coadjuvantes como Owen (Rahul Kohli) e Jaime (Amelia Eve) surgem igualmente carismáticos, ainda que sem a mesma profundidade da protagonista.

O trabalho técnico de Bly Manor é um dos grandes chamativos da temporada. A trilha sonora da dupla Andrew Grush e Taylor Stewart — responsáveis pela trilha de Residência Hill e que retornam aqui —, é tão precisa quanto devidamente melancólica, além de marcante. Já Maxime Alexandre (Shazam) e James Kniest (Annabelle) são responsáveis pela cinematografia que não apenas é bela, como se mostra bastante importante na composição das cenas que distinguem presente e passado — de modo que o espectador pode se orientar pelas cores utilizadas nas cenas. Há também um trabalho minucioso de direção no que tange aos enquadramentos das cena, criando a chance do espectador se deparar com diversos fantasmas escondidos em cantos da mansão no decorrer dos episódios.

Essa “caça aos fantasmas” é um easter-egg ao mesmo tempo divertido e assustador, que por sua vez ressignifica muito bem o cenário da trama. Afinal de contas, que forma melhor para ilustrar os diversos anseios e traumas daqueles que vivem — ou viveram — em Bly? Os ambientes enormes e vazios da mansão são cheios de fantasmas do passado, que por sua vez perseguem os personagens de forma tão assustadora quanto qualquer entidade sobrenatural poderia fazer. Essas presenças nem sempre hostis permanecem para sempre ali, e encontrá-las, mesmo sem saber de suas origens, acentua tanto o drama quanto o terror de Bly Manor.

Sem dúvidas A Maldição da Mansão Bly é uma obra de terror, mas também de drama. E seu poético final pontua o melhor de ambos os lados da obra. Mike Flanagan deixa claro que sabe exatamente qual sentimento ele quer inspirar no espectador, que possivelmente chegará aos créditos finais do último episódio bastante reflexivo. Sobre a vida, o amor, a morte e o pesar. E também com certa curiosidade pelo futuro da antologia, já que fica claro que o showrunner é um bom entendedor de terror e sabe como moldá-lo para sair do lugar comum. Sabe-se lá o que sua mente planeja após duas histórias de casa mal-assombrada, mas se Flanagan empregar a mesma elegância vista aqui em outros subgêneros do terror, com certeza boas surpresas virão para aqueles que apreciam algo além dos sustos fáceis que qualquer obra do gênero possa oferecer.

A Maldição da Mansão Bly está disponível na Netflix.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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