A Filha Perdida

 A Filha Perdida

Mães não podem ser imperfeitas. Mães não podem ser falhas. “Eu sou egoísta” diz Leda, interpretada com maestria por Olivia Colman, à certa altura de A Filha Perdida (The Lost Daughter), mas as mães não podem ser egoístas. A sociedade permite que as pessoas sejam muitas coisas, inclusive aqueles que são pais, que podem ser imperfeitos, falhos, egoístas — lhes é permitido até escolher se serão pais ou não —, mas não dá o mesmo privilégio às mães. Justamente por isso que a natureza da narrativa proposta por Elena Ferrante — autora do livro homônimo que agora é adaptado às telas por Maggie Gyllenhaal, em sua estreia como diretora e roteirista — pode soar tão incômoda para algumas pessoas. E também é por isso que resulta em algo tão fascinante. 

Costurando flashbacks para construir a contextualização necessária, a diretora estreante demonstra um forte controle da narrativa ao apresentar Leda ao espectador. Em um primeiro momento, a personagem surge através de um véu de mistério, sem que o público possa entender suas intenções, principalmente quando é introduzido o primeiro conflito da obra — que ocorre logo nos primeiros minutos —, já delineando a personalidade rígida da personagem, ainda que não de forma negativa. E conforme a trama avança, Gyllenhaal conduz o espectador por entre a mente de Leda, desvendando seu passado, sentimentos e pesares ao passo que vai apresentando ao espectador o significado da tal “filha perdida” indicada pelo título.

É interessante como a narrativa de A Filha Perdida e o desenvolvimento de Leda se encaminham através de conflitos quase incansáveis. Há poucos respiros de fato dentro da obra e quando estes existem, não parecem genuínos ou duradouros, o que concede ao filme um tom de suspense que é bastante curioso. É justamente por este tom não coincidir diretamente com o texto — a escrita não soa como um thriller, embora todo o restante demonstre o contrário — que Gyllenhaal consegue instaurar uma atmosfera de angústia constante, capaz de incomodar mesmo nos diálogos ou interações mais simples envolvendo a protagonista. É uma forma bastante eficiente de evidenciar como a personagem se sente, presa em um ciclo de culpa e angústia do qual é impossível, para ela, escapar.

Este sentimento é acentuado pela inconstante presença da personagem vivida por Dakota Johnson, cuja história e dramas pessoais acabam se entrelaçando com os da protagonista. Seus momentos em cena, quase sempre imprevisíveis, tornam-se um lembrete constante do passado da própria Leda — que ganha vida em tela com Jessie Buckley na pele da protagonista durante flashbacks —, atribuindo contornos quase sombrios nas interações entre as duas. A relação entre elas, que ao mesmo tempo tem um ar de maternal e de um antagonismo — propositalmente — mal resolvido é interessante, tornando-as um contraste e, paralelamente, um reflexo uma da outra. E se Colman devora as cenas com uma interpretação incrivelmente profunda — há mais nuances do que se pode captar em uma primeira vista —, Johnson atrai pela presença ininteligível, com olhares e sorrisos que jamais permitem que o espectador leia suas emoções e intenções claramente. 

Já Buckley fascina por funcionar como um contraponto há ambas, com a atuação mais expansiva do trio, mas sem destoar da obra. Felizmente, além da interpretação da atriz — que segue encorpando sua ótima filmografia, já que parece destacar-se a cada novo papel —, Gyllenhaal conta com a exímia montagem de Affonso Gonçalves — que trabalhou no documentário brasileiro Democracia em Vertigem —, costurando efetivamente o passado e presente para compor a personalidade de Leda. O mosaico composto por Gonçalves é efetivo para que o público possa enxergar a personagem sem filtros, mas evitando que a empatia caia por terra, já que este é um elemento importante para que a narrativa de A Filha Perdida ganhe força, principalmente em seu terceiro ato.

Com personagens tão complexas, é até curioso como se torna difícil notar os diversos símbolos espalhados por Gyllenhaal durante a narrativa. E para cada um destes, é possível buscar um sem número de interpretações que criam novas nuances para a obra, tornando tão fútil quanto fascinante a tentativa de entendê-la por completo. E talvez nisso resida uma das maiores forças da direção, pois evita tentar mastigar cada significado de cada coisa. Se os flashbacks já possuem um tom bastante expositivo — que acaba sendo incontornável para a narrativa, pois há muito que precisa ser contextualizado —, ao menos a diretora resguarda parte desta experiência para que o espectador busque desatá-la por si só. E de certa forma, potencializa a temática da maternidade, expondo-a como algo complexo e individual e que, provavelmente, jamais poderia ser compreendida em sua totalidade.

Maduro e sufocante, A Filha Perdida não é uma experiência fácil. Sua complexidade, entretanto, é proporcional ao impacto deixado, convidando o espectador a refletir e mergulhar novamente em uma obra tão distinta quanto esta. E se o trio de atrizes — Olivia Colman, Dakota Johnson e Jessie Buckley — já possuem sua dose de admiradores por seus trabalhos anteriores, o destaque acaba vindo pela intensa e segura direção de Maggie Gyllenhaal, que mostra a que veio já em seu filme de estreia, que entrega um filme que possivelmente ainda será centro de muitos debates acerca de diversas temáticas tocadas em sua marcante narrativa. 

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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