A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

 A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Alguns diretores estão tão certos do que querem apresentar ao público que conseguem conduzir uma sequência inicial que transmite, em poucos minutos, as intenções, a linguagem, e o tom de toda a narrativa a seguir. Michael Rianda, diretor de A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (The Mitchells vs the Machines), por sua vez começa esse tipo de tratamento ainda antes do filme em si começar, já que até mesmo a Dama da Tocha — ícone clássico da Columbia Pictures, distribuidora da obra — é afetada pelo estilo hiperativo da obra. E se a história do filme soa familiar, ao menos a narrativa visual empregada pelos produtores de Homem-Aranha no Aranhaverso faz com que tudo ganhe uma roupagem divertida de acompanhar e que conversa diretamente com o entretenimento “rápido” que parece projetado para uma geração com déficit de atenção.

Afinal, para uma época onde vídeos de mais de um minuto já não parecem chamar atenção — o consumo, assim como a vida, anda rápido demais —, é um trabalho complexo fazer com que alguns espectadores consigam prestar atenção em uma tela por uma hora e meia. Auxiliado por nomes como Phil Lord e Christopher Miller — produtores do filme —, o Rianda consegue lidar bem com isso ao fazer com seu filme integre a linguagem da internet em seu próprio humor, mas também dentro da narrativa. Ou seja, o estilo empregado não se torna algo gratuito, mas justificado como se o filme não fosse dirigido por Rianda, mas sim por Katie Mitchell (Abbi Jacobson), a protagonista que nunca se encaixou, mas nutre um amor puro pelos filmes, criando seus próprios curtas e entrando em uma faculdade de cinema. O que preocupa Rick (Danny McBride), pai da garota, que teme que sua arte não lhe renda um futuro. É um conflito típico de pais e filhos que já foi traduzido para o cinema centenas de vezes — talvez mais —, mas que aqui ganha um agravante no mínimo curioso: uma revolta das máquinas.

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

A partir daí, o diretor costura duas tramas distintas que já foram repetidas o suficiente para que o público perceba seus clichês, utilizando um estilo único de animação e de humor, o que dá um ar suficiente original para que o público possa embarcar no filme. O que o segura a atenção do público, entretanto, é o bom timing das piadas, que brincam não apenas com a metalinguagem da obra ao “permitir” que Katie insira suas próprias gags no filme, mas também incorporando no humor um estilo muito mais próximo de virais, como vídeos do youtube ou filtros de instagram, o que é bem utilizado não só para fazer rir, mas para criar uma conexão com o público mais jovem e adepto a essas tecnologias, ao passo que brinca com o estranhamento de uma geração que não possui tal familiaridade. Isso brinca diretamente com o conflito de gerações que é peça fundamental para a obra, já que é o que fundamenta o principal conflito entre Katie e Rick, que possuem dificuldade de se entenderem entre si.

De certa forma, tal dificuldade de estabelecer uma comunicação efetiva é o conflito principal do filme, já que praticamente todos os núcleos de Família Mitchell trazem um olhar distinto sobre a conexão entre seres humanos, seja na figura materna (Maya Rudolph) que tenta mediar a relação difícil entre Katie e Rick, seja no irmão mais novo Aaron (dublado pelo próprio Rianda), que tem dificuldades de falar com a garota que gosta, ou mesmo no discurso — assustadoramente coerente — de Pal (Olivia Colman), a inteligência artificial que dá início à revolução. E no meio de tudo isso, a animação ainda acha espaço para inserir comentários ácidos sobre o comportamento dos seres humanos na internet — vide o hilário momento do “wi-fi desligado” — e também às grandes corporações do mercado tecnológico — o comentário sobre coletar e armazenar os dados dos usuários é certeiro —, mas tudo de forma coerente com a narrativa principal, sem fazer com que A Família Mitchell ganhe ares panfletários contra os “males da internet”.

É uma decisão acertada, já que a própria condução da narrativa expõe certos problemas da internet, mas não tratando-a como vilã de fato — apesar da antagonista do filme ser literalmente uma I.A. —, mostrando que é possível ter um uso saudável da rede, exemplificado dentro da obra pelos filmes caseiros que Katie faz. Além disso, estende os comentários à tecnologia em si, como a necessidade de haver uma conexão em todo e qualquer objeto, o que gera um dos melhores momentos da obra, dentro de um shopping envolvendo uma perseguição e um conjunto de Furby’s que possivelmente fará o público mais velho dar altas risadas. Ao construir seu humor com referências para tantas vertentes, A Família Mitchell consegue criar um ritmo interessante de piadas sem fazer com que elas atropelem umas às outras, e também deixando espaço para que a trama se desenvolva para além disso, o que fortalece o lado dramático necessário para que a resolução funcione bem, mesmo perdendo força quanto a algumas soluções no clímax, que soam simples demais.

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Além da comicidade, a obra destaca-se também pela forma como usa sua animação. Se por muito tempo a DreamWorks foi a grande “rival” da Pixar no mercado, é justo apontar como a Sony tem corrido por fora usando uma divertida mistura de técnicas e indo na contramão do estilo de ambos os estúdios para inovar. O resultado visto em Aranhaverso já impressionava, ao misturar a linguagem dos quadrinhos com texturas que faziam o filme parecer uma versão filmada de um gibi, e apesar do estilo de A Família Mitchell remeter a aventura quadrinesca do Homem-Aranha, Michael Rianda consegue criar uma atmosfera com mais técnicas, fazendo de sua animação um projeto ainda mais hiperativo. O resultado é eficiente e também estimulante, lapidando o estilo para dar ao seu filme um charme próprio e uma imersão tão forte quanto a de Aranhaverso, mas sem repetir, necessariamente, o trabalho que fora realizado naquele filme.

Com bastante personalidade e uma trama que conversa com seu público de várias maneiras — do conflito de gerações à forma como nossas vidas foram impactadas pela internet — A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas é uma das animações mais divertidas dos últimos anos, além de se destacar por não seguir uma “cartilha” dos estúdios do meio, prezando por entregar algo com um estilo próprio. Seja ao flertar com o absurdo ou ao declarar abertamente seu amor ao cinema de forma tão metalinguística, Rianda preza por fazer de seu filme algo surpreendente e que reforça a atenção do espectador a cada minuto com uma gag acertada ou com alguma nova surpresa animada em tela. E se isoladamente, tal fator já renderia elogios ao filme, vale apontar ainda que é algo que deve evitar que a obra envelheça tão cedo, pois tal hiperatividade favorece a revisão, já que é praticamente impossível absorver todos os detalhes em uma única assistida. Quem diria, afinal, que a linguagem rápida da internet poderia encontrar, em um longa-metragem, um uso tão cabível e divertido quanto o mostrado aqui.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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