A Crônica Francesa

 A Crônica Francesa

Há alguns diretores cuja assinatura é tão bem definida que basta ver um filme para que o espectador reconheça seus traços em qualquer outra obra que assistir. Wes Anderson é um ótimo exemplo para isso, já que seus planos simétricos e cores vivas e bem saturadas são sempre presentes em suas obras, assim como um desenrolar narrativo de uma casa de bonecas — termo comumente atribuído a seus filmes dado o número de personagens explorados pela trama, somado à estética do diretor —, também mandatória na filmografia do diretor. Tais aspectos dizem muito sobre A Crônica Francesa (The French Dispatch), obra que é bastante definida por tais características e é dotada de um conforto excêntrico, tal qual os trabalhos anteriores do diretor.

Em uma definição direta e rasa, A Crônica Francesa é uma ode terceirizada à várias formas de arte. “Terceirizada”, pois, antes de homenagear a gastronomia, a pintura, literatura e afins, a obra homenageia o jornalismo, apresentando o ofício narrativamente ao focar-se em uma revista — que dá título ao filme — e estruturalmente ao “dar vida” às diversas sessões desta em segmentos próprios dentro da trama, explorando diversas pequenas histórias que costuram-se em uma narrativa maior. Eis, então, a casa de bonecas, com o diretor trazendo um grande elenco — com nomes como Owen Wilson, Léa Seydoux, Frances McDormand, Bill Murray, Saoirse Ronan, etc — e encaixando-os nos sketches como uma criança ávida com seus brinquedos faria ao guardar sua coleção.

A Crônica Francesa

Anderson é um diretor experiente o bastante em seu próprio estilo para conseguir evitar que A Crônica Francesa se torne uma obra repetitiva ou episódica, armadilha fácil de cair ao propor uma estrutura de roteiro como a vista aqui. Pelo contrário, o diretor consegue estabelecer um bom ritmo e trabalhá-lo neste até o final, ainda que nem sempre prenda a atenção pela narrativa em si, mas sim pela própria excentricidade que permeia seus personagens. É o caso, por exemplo, do segmento que conta com a presença do pintor vivido por Benício Del Toro, que com uma interpretação magnética consegue cativar atenção por si só, mas que neste caso é complementado pelo bom texto e também pela presença — também magnética — de Seydoux. O mesmo não pode ser dito, por exemplo, de Timothée Chalamet, que se segura firme com uma atuação apaixonada, mas não tem um texto realmente sólido para trabalhar.

Observa-se, portanto, que A Crônica Francesa é uma obra de altos e baixos, ainda que nunca realmente baixa o bastante para se tornar desinteressante ou blasé. O grande problema de fato é que Anderson não escapa ao próprio estilo, ou seja, jamais elevando seu trabalho para um campo realmente novo ou suficientemente diferente para que o espectador se encante pela obra. Não existe um ineditismo que salta aos olhos como em Ilha de Cachorros ou mesmo uma narrativa envolvente como a de Grande Hotel Budapeste — obra na qual os vícios estéticos de Anderson já eram gritantes, mas cujo roteiro evitava que soasse repetitiva —, de modo os méritos de Crônica resumem-se, quase todos, à parte estética: dos cenários aos figurinos, dos planos abertos à mescla de técnicas — que parece cruzar maquetes, stop-motion e filmagens convencionais para criar um estilo único —, tudo contribui para resultar em um dos filmes mais belos do diretor.

A Crônica Francesa

Desta forma, A Crônica Francesa soa como uma narrativa esvaziada de seu maior primor: o aspecto cinematográfico em si. Esteticamente perfeito e com um bom número de cenas que poderiam resultar em bons retratos, falta à obra algo que faça o espectador sentir a transição da revista fictícia para o cinema, já que a sensação “episódica” acaba remetendo ao consumo de colunas em uma publicação que, tirando capa e contracapa, não possuem liga. O pior é que, com a “virada de página” — ou seja, a mudança de segmento — é difícil mergulhar verdadeiramente nas narrativas, que terminam cedo demais, ao passo que a trama principal — que se desenrola na redação da revista — é suficientemente interessante, mas não explorada de forma satisfatória. O próprio humor contido neste núcleo, um equilíbrio delicado e admirável entre o ácido e o cartunesco, e que funciona tão bem — principalmente quando desempenhado por Murray — é um deleite do qual Anderson nos poupa de desfrutar devidamente.

Efêmero, A Crônica Francesa deve ser uma obra que irá agradar principalmente aos já convertidos pelo estilo do Wes Anderson — a esta altura, elogiar o desenho de produção de Adam Stockhausen é apenas repetir elogios que aplicam-se à qualquer filme do diretor escolhido a esmo —, que encontra aqui um ponto alto ao sintetizar, com sucesso, todos seus vícios estilísticos. Mas mesmo para este público, a obra pode se mostrar pouco marcante pelas mesmas razões, já que enquanto autor, Anderson parece atuar em um campo demasiadamente confortável. Compondo — mais uma vez — um universo simétrico e excêntrico, o diretor é efetivo ao elaborar uma crônica leve e divertida, que receberá muito bem aqueles que estiverem buscando uma jornada sem grandes pretensões, mas que infelizmente contenta-se em não ir muito além disso. 

Filme visto durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também