Crítica | 1917

 Crítica | 1917

Não importa quantas histórias sobre guerras existam, explorar os eventos e horrores de tais períodos sempre chamam atenção, e já renderam ao cinema adaptações grandiosas e cada vez mais cruas e realistas. É com o mesmo espírito de Até o Último Homem (2016) – de se contar narrativas sobre núcleos desconhecidos da guerra – que o diretor Sam Mendes (007 – Operação Skyfall e Beleza Americana) nos contempla com 1917, inspirado nas histórias e experiências sobre a Primeira Guerra Mundial que seu próprio avô Alfred H. Mendes conta em sua autobiografia. Uma história bem-vinda, uma vez que o cinema das últimas décadas se aprofundou apenas em eventos da Segunda Guerra.

Na trama, acompanhamos a dupla de soldados britânicos Blake e Schofield (Dean-Charles Chapman e George MacKay respectivamente) durante a Primeira Guerra, que recebem a audaciosa missão de entregar uma mensagem urgente, alertando um regimento afastado que está prestes a cair numa armadilha alemã, comprometendo a vida de 1600 homens – incluindo a do irmão de Blake – diante do massacre inesperado que os aguarda. Para isso, eles precisam cruzar o território inimigo em menos de 24 horas.

Indiscutivelmente, o grande trunfo do filme é o aclamado trabalho de plano sequência, que na verdade se trata de uma edição muito primorosa por parte de Lee Smith (Dunkirk, Interestelar), baseada na técnica criada por Alfred Hitchcock em Festim Diabólico (1948), em que os cortes são feitos de forma imperceptível, através de passagens por árvores ou objetos que temporariamente tomam foco da cena. É uma proposta brilhante considerando a narrativa do filme, pois os olhos do espectador precisam se manter incansáveis como os próprios soldados em missão, de forma ininterrupta.  

O roteiro simples – e efetivo, afinal aqui não há necessidade de ir além – e a edição são complementos do primoroso espetáculo visual nos concedido pela fotografia de Roger Deakins (vencedor do Oscar por Blade Runner 2049 e indicado outras 13 vezes) e o design de produção de Dennis Gassner (Blade Runner 2049, Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas), que junto à direção de Mendes, nos sensibiliza falando pouco e mostrando muito, afinal as cenas tocam a alma e manipulam nossos sentimentos instantaneamente.

A presença dos 4 elementos da natureza é algo peculiar e poético no filme. Três deles – terra, fogo e água – surgem em potenciais momentos críticos da trama, como em uma das cenas mais memoráveis, em que temos um vilarejo em chamas, cujas sombras e labaredas dançam ao redor de um dos protagonistas, projetando algo semelhante à um cemitério de túmulos de pedra e o próprio espectro da morte o seguindo e encurralando. Já o ar, pode aqui ser visto como um sopro de esperança, na cena em que pétalas de cerejeira adornam um personagem na água, lhe entregando uma mensagem muito sugestiva de persistência, como quem sussurra “vá em frente”.

Complementando a grandiosidade da obra, a trilha sonora aparece apenas em momentos-chave, acentuando o tom de urgência da trama. Bem como a mixagem e edição de som, que proporcionam maior imersão no filme, e são um deleite quando apreciadas em conjunto da obra propriamente em um cinema.

Além de Chapman e MacKay, cujos personagens geram uma empatia quase imediata no espectador, o elenco conta com grandes nomes em pequenos papéis de cargos importantes, como Benedict Cumberbatch, Mark Strong e Colin Firth, que no entanto, não passam de peões na trama, acentuando a ideia de que a guerra não se faz apenas de homens renomados no comando.

Tendo ganho (merecidamente)  os prêmios do Globo de Ouro 2020 nas categorias de Melhor Filme de Drama e Melhor Diretor, 1917 é o mais puro produto do bom uso das técnicas da sétima arte, e, apesar das clichês reflexões sobre sacrifícios, determinação e o horror de vidas ceifadas pela violência da guerra, merece ser refletido e eternizado.

Nota do crítico

Avaliação: 4.5 de 5.

Priscila Moreira

Co-fundadora do Salve Ferris. Criada pelos filmes desde os anos 90. Feita de 2/3 de Morticia mas a outra parte é Carrie Bradshaw.

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