44ª Mostra de SP | 17 Quadras

 44ª Mostra de SP | 17 Quadras

Embora o crime e a perda sejam fatores centrais dentro da trama de 17 Quadras (17 Blocks), seria injusto dizer que a obra seja sobre isso. Ou no caso, somente sobre isso. O documentário de Davy Rothbart é também um filme sobre a vida, em toda sua imprevisibilidade e sobre o valor da família, ainda que ela não seja perfeita — nenhuma família é, afinal —, e principalmente, sobre esperança.

Na obra, uma espécie de Boyhood que deu certo — retratando a vida e esbarrando nela, ao invés de apenas encená-la —, o espectador é convidado a acompanhar a trajetória da família Sanford durante 20 anos — começando em 1999, até 2019 —, passando por cerca de três gerações e testemunhando os altos e baixos vividos por eles. De primeira, o foco está em Cheryl Sanford e seus três filhos: o mais velho Akil ‘Smurf’ Sanford, a filha do meio Denice Sanford e o caçula Emmanuel Sanford. Conforme a obra avança, a família cresce e passamos a acompanhar também o pequeno Justin Sanford, filho de Denice. 

17 Quadras

A vida da família afro-americana é mostrada através das lentes de uma câmera intimista, muitas vezes comandadas por Smurf ou Emmanuel, tão logo fazendo do público um companheiro próximo dos irmãos e, consequentemente, dos Sanford em si. É ainda no primeiro ato, imerso em uma nostálgica e quase confortável atmosfera noventista, que o espectador se apega àquelas figuras tão humildes quanto carismáticas, que nunca fingem ser mais do que são. Cheryl, por exemplo, mostra plena consciência de seus erros ao citar seu envolvimento com drogas e a forma como expôs esta vida à Smurf. Entretanto, tal qual sua sinceridade ao falar dos arrependimentos, ela deixa claro o amor e devoção que sente por seus filhos. Esse aspecto de estar assistindo algo genuíno chama atenção em 17 Quadras e, por sua vez, torna alguns momentos verdadeiramente dolorosos.

A montanha-russa emocional da obra se dá conforme o crescimento daquelas crianças, que tornam-se adultos com suas próprias aspirações e visões de mundo. Emmanuel continua um jovem sonhador que aparenta um futuro brilhante — a obra ressalta em vários momentos como o rapaz era bom, não fumava, não bebia, era estudioso — enquanto Smurf entra no mundo das drogas, em uma história que o documentário aborda com uma transparência tocante, sem tomar partido ou demonizar o rapaz por suas decisões, ainda que mostrando consequências. Em contrapartida, Denice aspira se tornar uma policial, quase como uma resposta para a violência do meio em que os Sanford vivem. Esse ambiente, por sinal, é quase poético, já que “17 quadras” se refere aos quarteirões que separam o bairro da família do Capitólio estadunidense. A violência do local ocorre frequentemente, sem que o Estado enxergue — ou queira enxergar.

17 Quadras

Aspecto fundamental a um documentário, a montagem de Jennifer Tiexiera — que também é responsável pelo roteiro — é um dos grandes méritos da obra aqui, moldando uma ótima narrativa a partir de mais de 1000 horas de material bruto. O resultado disso não é apenas um roteiro coeso, como traz pontos de virada pertinentes à trama sem forçar a obra, fazendo-a soar algo ficcional. Tiexiera tem plena consciência que seu filme, ainda que um documentário, não pode progredir apenas apresentando novos fatos e o resultado de sua boa montagem é perceptível ao estabelecer não apenas ritmo, mas um clímax propício à toda narrativa. Assim, enquanto se mantém interessante e emocional, o espectador nunca esquece que o que está assistindo é apenas a dura realidade agindo.

Ao final, 17 Quadras mostra-se como um sensível registro sobre vidas sem privilégios, mas que persistem diante de todas as adversidades que podem ocorrer. Um retrato de pessoas que parecem nascer fadadas à viradas cruéis, mas que defendem sua existência com perseverança e otimismo dentro de uma sociedade que se recusa a enxergá-los. E quando, nos créditos, é revelada uma dedicatória para aqueles que foram vítimas de violência no estado de Washington e um número exorbitante de nomes surge em tela, impacta fortemente por explicitar o desdém com tantas vidas. Desdém que, nos 20 anos retratados na obra, não parece ter mudado ou diminuído nem um pouco. Para aqueles que vivem sob os fechados olhos do Estado, resta por fim, esperança.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também