007 Marcado para a Morte

 007 Marcado para a Morte

A Guerra Fria, conflito ideológico ocorrido entre os Estados Unidos e a União Soviética que estendeu-se por décadas a fio paira sobre boa parte da franquia 007. De fato, muitas obras trouxeram a temática para os roteiros, com o MI6 e Bond ora lidando com ameaças soviéticas, ora aliando-se para enfrentar problemas maiores. Há poucas obras, entretanto, que trazem o espião tão junto de elementos soviéticos quanto 007 Marcado Para a Morte (The Living Daylights), como neste caso em que o Bond precisa lidar com a ameaça da KGB, cuja influência parece estar mais enraizada do que possa parecer a princípio.

Marcado Para a Morte é dirigido novamente por John Glen, em sua quarta colaboração para a franquia — desde Somente Para Seus Olhos — e instaura, finalmente, o tom mais sóbrio da franquia, que Glen tentara retomar aos poucos ainda na fase-Moore, que se encerrou no longa anterior já que o décimo-quinto Bond conta com a estreia de Timothy Dalton no papel. E se por um lado é um pouco triste que Moore tenha deixado o papel com uma minoria de performances marcantes — encontrando muito bem o tom de sua versão apenas sob a direção de Glen, ou seja, em três dos sete filmes que protagonizou —, Dalton mostra-se uma boa adição da franquia, sem destoar completamente do que se espera de um James Bond, mas trazendo certa distinção no papel, ainda que de forma sutil.

007 Marcado para a Morte

Isso se dá, em grande parte, à direção de John Glen, retomando em Marcado Para a Morte a atmosfera dos primeiros filmes da franquia, quando ainda protagonizados pelo insuperável Sean Connery, o que reforça a semelhança entre as versões dos dois atores. Sem cair na galhofa, Bond 15 traz até mesmo os icônicos gadgets, parte importante da mitologia do personagem, que após muito tempo volta a dirigir um Aston Martin turbinado por Q (vivido novamente por Desmond Llewelyn). E é esse equilíbrio entre uma narrativa mais pé-no-chão com pontuais aspectos fantasiosos que torna Marcado Para a Morte uma obra marcante para a virada de fase, evitando que a costumeira mudança de intérpretes seja o único fator a identificar que estejamos vendo uma “nova fase”, ainda que tudo construído aqui passe uma sensação de sutileza um tanto exagerada.

Isso por que Marcado Para a Morte é uma obra cujo todos os aspectos são extremamente moderados. Se mesmo nas mãos de Glen, os filmes de Roger Moore eram um tanto espalhafatosos, o sentimento passado aqui é que os produtores tentaram assegurar que o filme estabelecesse a expectativa para a franquia daqui em diante — e que a fase cômica do espião ficara para trás —, suprimindo até mesmo características da personalidade do espião. É só observar como a atração do espião por Kara Milovy (Maryam d’Abo) é insinuada desde a primeira cena em que a personagem surge em tela, mas cuja relação entre os dois personagens é mostrada de forma comedida durante todo o filme. As cenas da dupla são muito mais afetuosas do que sensuais, construindo uma relação de amizade entre Milovy e Bond que soa genuína, sem que pareça que a ajuda do espião é motivada apenas pela missão ou pela atração, mas sim por um carinho muito mais forte nutrido pela Bondgirl da vez.

007 Marcado para a Morte

Diante de tantas mudanças de tom e características suavizadas quando comparamos a obra aos seus predecessores, é bastante incômodo que John Glen peque em um aspecto central, que a essa altura já é de praxe na franquia, sendo uma reclamação presente em diversos dos meus textos sobre a franquia: os antagonistas. Falta à Dalton um antagonista que faça jus à sua estreia, com a obra colocando-o para enfrentar dúzias de soldados em diversos momentos, mas nunca estabelecendo um momento marcante entre Bond e o general Koskov (Jeroen Krabbé). Não sendo suficiente, Marcado Para a Morte ainda conta com um clímax um tanto inesperado no Afeganistão, que embora traga novos ares para a obra, tira um pouco da atmosfera “Bondiana” do filme.

De tanto suavizar seus aspectos-chave, a estreia de Dalton acaba sendo uma obra lembrada apenas pela mudança de ator e pela retomada do tom mais sério em detrimento da comicidade. Com isso, fica a impressão que a necessidade de regrar a franquia acabou minando algumas características necessárias para a obra ser individualmente marcante, com o próprio protagonista surgindo um tanto tímido, ainda que com presença suficiente para dar vida à Bond sem desaparecer diante dos antecessores — o que é um mérito e tanto, na verdade —, impedindo que Marcado Para a Morte acabe sendo completamente esquecível.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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