007 Contra Octopussy

 007 Contra Octopussy

Após dosar a autoparódia contida na fase-Moore em Somente Para Seus Olhos, John Glen retorna na direção do décimo-terceiro Bond, 007 Contra Octopussy (Octopussy). Com uma introdução bastante interessante que evoca um tom mais politizado — que parece ter ficado em segundo plano nos últimos filmes da franquia —, Bond 13 aparenta seguir por um viés mais sério que antes. Um engano, já que a obra contém uma boa dose de bobagens, mas sem que o exagero tome conta a ponto de descaracterizar a obra.

De fato, Octopussy é um filme interessante à primeira vista, não apenas por sua introdução. Sua música-tema é boa, sua premissa também — Bond (Roger Moore) indo investigar um caso após um agente 00 ter sido morto — e, pela primeira vez em muito tempo, tanto os coadjuvantes quanto o antagonista são bastante intrigantes, de modo que toda a construção do primeiro ato instiga mais a cada minuto que passa, contendo dois dos pontos altos do filme: a cena do leilão e o encontro em um tipo de cassino indiano — colocar James em mesas de jogo é outra tradição da franquia — onde Bond fica tem seu primeiro diálogo com o principal antagonista, Kamal Khan (Louis Jourdan).

Kamal Khan tem algo que faltava à um vilão da franquia em muito tempo: ameaça. Essa ausência é um problema recorrente nos vilões da franquia, sendo que na fase-Moore o único antagonista que impunha perigo foi Jaws (Richard Kiel), que embora marcante, não era o vilão principal dos filmes em que apareceu, mas sim um capanga. Neste primeiro conflito com Bond, Glen já consegue criar toda uma aura de perigo em torno do Khan, principalmente com o trabalho na trilha sonora que lhe concede um tom mais “grandioso” quando surge em cena. O personagem tem consigo mais um diferencial se comparado a outros vilões: enquanto geralmente vemos Bond entrando no caminho dos antagonistas, que querem se livrar dele para triunfar, Khan aparenta um ódio genuíno pelo espião. Um mero detalhe que faz toda a diferença, regendo a atuação de Jourdan durante todo o filme.

O mesmo pode-se dizer das Bondgirls, outro aspecto mandatório para os filmes do espião e que tem sido o maior mérito à ser agregado na franquia pela fase-Moore. Após termos personagens mais independentes e marcantes por si só, sem limitar-se a ser apenas a mulher-objeto do espião — ainda que a exagerada sexualização das personagens seja um fator que persista até os filmes mais recentes —, temos finalmente uma mulher como uma das antagonistas. E não apenas como uma isca para Bond, já que Octopussy (Maud Adams) — que já havia aparecido na franquia em um papel menor, em 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro — é tão ou mais poderosa que Khan dentro da narrativa, liderando um exército de mulheres bastante leais e perigosas para quem entrar em seu caminho. E é o mínimo esperado da personagem, afinal, em uma franquia cujo protagonista nunca deu nome à nenhum dos filmes, um coadjuvante ou antagonista que o faz deve ser realmente marcante.

Além de Octopussy, temos também uma personagem feminina coadjuvante, Magda (vivida por Kristina Wayborn), que além de ter uma boa química com Moore, tem presença suficiente para ser marcante quando entra em cena, rendendo um dos momentos mais divertidos do filme — a cena do vestido — e também funcionando mais que apenas o par romântico. Se há algum problema relacionado ao sexismo comum à franquia em Octopussy, é o fator “bikini girls with machine guns” que domina o clímax do filme. É quase um retrocesso que após o desenvolvimento de uma personagem tão forte quanto Octopussy, a obra apele para um momento tão fetichista quanto este, que coloca o exército de mulheres em uma sequência de ação com roupas bastante apelativas. Ainda que fique claro que exista uma função narrativa no figurino — usar da sedução como fator para distrair os homens —, não deixa de ser incômodo, além de destoar do restante da obra.

O maior problema narrativo de Octopussy, entretanto, é sua segunda metade que infla a trama com elementos e personagens demais. Enquanto a primeira hora é efetiva em cativar o público, a segunda metade aos poucos torna-se um tanto cansativa, resultando em um clímax também orquestrado de forma exageradamente grandiosa e elaborada. Na prática, há três clímax distintos, cada um elevando ainda mais o tom do anterior — a sequência do trem, a cena no circo e seu desdobramento na mansão e, por fim, a fuga de avião —, que acaba tornando os minutos finais um tanto maçantes, dando a impressão de que o filme se estende mais do que deveria.

Apesar dos problemas, 007 Contra Octopussy funciona por ser uma obra divertida ao passo que traz novos ares ao espião britânico. Há boas sequências de ação, personagens cativantes e até mesmo o protagonista mantém o nível alcançado no papel, igualmente à vontade e cativante como James Bond. John Glen eleva o que já havia realizado na obra anterior, entregando um resultado ainda mais satisfatório que o anterior, embora ainda tenha problemas ao dosar a grandiosidade do clímax em sua narrativa.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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