007 Contra GoldenEye

 007 Contra GoldenEye

Bastaram dois filmes para que Timothy Dalton deixasse sua marca no legado de Bond e, felizmente, ele conseguiu a tempo, pois 007 Contra GoldenEye (GoldenEye) só chegaria aos cinemas seis anos após Permissão Para Matar. Com o contrato vencido e outros projetos ocupando a agenda de Dalton, a produção reescalou o papel, trazendo Pierce Brosnan como o agente britânico e, por mais que soe um tanto injusto com Dalton — que foi um ótimo Bond e merecia mais —, Brosnan mostra a que veio já em sua primeira vez no papel, unindo enorme carisma com a já esperada atmosfera de uma obra da década de 90.

Para quem imagina que a fase-Brosnan seria regida pela galhofa — como fora a fase-Moore entre os anos 70 e 80 —, provavelmente acabará sendo surpreendido, já que sob a direção de Martin CampbellGoldenEye revela-se como um interessante thriller que ao mesmo tempo que remete à atmosfera clássica de obras com um teor mais político — incluindo aí alguns filmes da própria franquia —, encontra um saudável equilíbrio com o cinema de ação mais explosivo, com espaço para as famosas tiradas irônicas de Bond — cortesia do já citado Roger Moore — e talvez a Bondgirl mais fatal da série: um dos antagonistas, Xenia Onatopp, encarnada por Famke Janssen.

GoldenEye

Em sua composição para o papel, é muito divertido observar como Brosnan trouxe diferentes traços de intérpretes anteriores, mas não se resumindo a ser uma amálgama de versões. Estão ali o charme muito bem encarnado por Sean Connery, mas também o humor ácido de Moore — um traço aperfeiçoado pelo ator durante sua fase de filmes e que Brosnan encontra o timing com facilidade logo em sua estreia —, mas também uma sensibilidade palpável, algo marcante de Timothy Dalton. Entretanto, como dito, Brosnan não se limita a repetir traços e carrega consigo certa “truculência” inédita para Bond. Enquanto trajado nos clássicos terno e gravata, seu James Bond aparenta um físico mais esguio, mas em outras cenas o ator ostenta um corpo muito mais forte. Aspecto que o diretor aproveita ao máximo para criar cenas de confronto mais intensas, com golpes mais pesados — desferidos por Bond ou sofridos por ele —, trazendo um novo nível de realismo para a franquia. Se antes o protagonista tinha sangue no rosto após um ou dois socos bem coreografados, agora é possível sentir o impacto recebido por ele.

Isso acaba por ser elevar ainda mais o trabalho realizado com os antagonistas apresentados, principalmente por ser comum na franquia que Bond enfrente fisicamente os capangas, e não os vilões principais. Em GoldenEye, entretanto, não apenas Bond precisa lidar com a ameaça da já citada Xenia Onatopp (Famke Janssen), uma sádica ex-piloto que tem prazer de estrangular seus alvos usando o próprio corpo — com a qual Bond possui algumas cenas de luta bastante… sugestivas —, quanto com um vilão que possui ligações com seu passado e com o MI6, Alec Trevelyan (Sean Bean). O mais interessante do vilão da vez é justamente sua representação como um personagem com habilidades muito parecidas com a de 007, tanto psicológica quanto fisicamente, estabelecendo o tamanho da ameaça que seria o próprio James Bond seria caso se tornasse um antagonista. Seus confrontos não são apenas divertidos de ver como funcionam para que o trio de roteiristas composto por Michael FranceJeffrey Caine e Bruce Feirstein brinquem com a percepção da própria franquia, como na cena em que Bond aponta que os vilões atuais não tem a mesma paciência para conduzir os conflitos com ele sem jogar um pouco de conversa fora.

GoldenEye mostra-se também como um marco para a franquia ao ser o primeiro Bond produzido pós-Guerra Fria — que terminara oficialmente em 1991, com a dissolução da União Soviética —, o que lhe permite sair das sombras de conflitos de outrora enquanto traz ares de renovação logo de início. Essa atmosfera de mudanças é pontuada com perfeição por M, papel recém-assumido por Judi Dench em um dos grandes acertos de elenco dentre todos os filmes do agente. Dench não apenas traz um peso distinto ao papel, dando-lhe muito mais personalidade que seus antecessores — Bernard Lee e Robert Brown — enquanto mostra-se muito mais cética em relação à Bond. Esse posicionamento mais “crítico” da personagem torna M mais próxima do desenvolvimento da narrativa em si, além de pontuar uma consciência de que alguns clichês já não cabem tão bem na franquia, já que é ela quem aponta que Bond é uma “relíquia da Guerra Fria” com seu comportamento sexista e misógino.

GoldenEye

Representando uma devida revitalização para a franquia, GoldenEye consegue segurar-se bem nas boas sequencias de ação com o “DNA” noventista e explosivo, ainda que perca um pouco o fôlego no terço final, já que com todas as revelações e devidas peças no lugar, a obra precisa encaminhar-se para seu costumeiro clímax de proporções megalomaníacas, diferente dos embates mais intimistas dos dois filmes estrelados por Dalton. Com isso, a tensão é deixada um pouco de lado, embora uma cena envolvendo uma caneta explosiva(!) — os gadgets da franquia são sempre um show à parte — consiga ancorar esse sentimento em um momento crucial, fazendo com que o espectador não consiga desviar o olhar durante alguns minutos do terceiro ato enquanto conta mentalmente o número de cliques que o personagem de Alan Cumming dá na caneta. Um momento muito divertido que equilibra muito bem o humor com a angústia, como poucas franquias conseguiriam fazer.

Com isso, Martin Campbell acaba por fazer com que GoldenEye seja o produto perfeito para trazer James Bond a uma nova era, ainda que não entregue uma obra perfeita para isso. Se enquanto resumida à seus quatro primeiros intérpretes e suas tramas, a franquia soa de uma forma muito mais contínua, sem nenhuma mudança brusca em tom e ritmo, é possível notar visivelmente a ruptura que existe quando voltamos os olhos aos anos 90, com um Bond com mais personalidade e coadjuvantes mais ativos, além de temáticas menos espalhafatosas e mais relacionadas à tecnologia — já que a internet se tornara algo cada vez mais acessível — do que, necessariamente, uma pura e simples dominação mundial, fosse ela por quaisquer meios necessários. GoldenEye, portanto, representa uma quebra de paradigma definitiva, que ao mesmo tempo em que acena ao passado da franquia, certifica-se de seguir em frente e deixar o que ficou para trás.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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